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Posts Tagged ‘lira neto’

Dois gênios que admiro bastante em um bate-papo sobre Getúlio Vargas e biografias – Lira Neto e Fernando Morais.

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Vale lembrar que os lançamentos do primeiro volume de ‘Getúlio’ já têm datas marcadas:

São Paulo/SP
Quarta-feira, 23 de maio, às 19h30
Bate-papo com Fernando Morais e sessão de autógrafos
Livraria da Vila — Fradique
Rua Fradique Coutinho, 915

Porto Alegre/RS
Segunda-feira, 28 de maio, às 19h30
Bate-papo com o jornalista Luís Araújo e sessão de autógrafos
Livraria Cultura — Bourbon Shopping Country
Av. Túlio de Rose, 80

Rio de Janeiro/RJ
Terça-feira, 29 de maio, às 19h
Bate-papo com Mário Magalhães e sessão de autógrafos
Museu da República – Catete
Rua do Catete, 153

Brasília/DF
Quarta-feira, 13 de junho, às 19h30
Bate-papo com Leonêncio Nossa e sessão de autógrafos
Livraria Cultura — Shopping Center Iguatemi
SHIN CA 4, Lote A — Lago Norte

Fortaleza/CE
Quinta-feira, 14 de junho, às 19h30
Bate-papo com a jornalista Mariana Marques e sessão de autógrafos
Livraria Cultura — Shopping Varanda Mall
Av. Dom Luís, 1010 – Meireles

Belo Horizonte/MG
Segunda-feira, 25 de junho, às 19h30
Sesc Palladium — Espaço Multiuso
Av. Augusto de Lima, 420 — 4º andar

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O 1º volume da trilogia Getúlio chega às livrarias dia 19 de maio, e cobre os anos de formação à Revolução de 30.

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Sei que o texto é meio grande, mas vale a leitura!

Nome: Rodrigo Rodrigues. Moro em: Facebook. Em relacionamento sério com: Twitter. Religião: Orkut. Gênero: on-line. Sobre mim: “Sorria sempre, seus lábios não precisam traduzir o que acontece em seu coração” (Clarice Lispector).

Como vocês já devem ter visto em meus perfis pessoais, sou ator, jornalista, cineasta, blogueiro e diretor de arte de uma agência de propaganda. Minha vida, aliás, é um Facebook aberto. Uso aplicativos para informar meus seguidores onde estou, quantas colheres de açúcar coloco no café e quanto tempo falta para cortar as unhas do pé novamente. Todo mês, transmito o banho do meu pug ao vivo. Ontem mesmo, abri uma discussão para decidir se colocava roupa branca ou escura na máquina de lavar. Cento e setenta e nove pessoas comentaram.

Toda vez que saio de casa, publico fotos. Sem exceção. Não raro, saio de casa apenas para publicar fotos. No bolso, celular com câmera 5.1 megapixels, e o dedo mais lépido que o Papa-Léguas para acionar o plano de dados. Não deixo passar um pôr do sol. Plac! O celular é o melhor amigo do homem social. É o cachorro que cabe no bolso.

Tenho mais amigos que Luciano Huck e mais seguidores que Buda. Numa das vezes que fui às ruas em 2012, aliás, notei que um homem me encarava. Escaneei, em vão, minha memória em busca de uma imagem que pudesse associar àquele rosto. Arquivo não encontrado. Resolvi desviar o olhar, mas não consegui bloqueá-lo. Ele se alçou em minha direção e, qual um Angry Bird, materializou-se na minha frente. Ofegante, estendeu a mão e perguntou: “Você não é o Rodrigo Rodrigues do Facebook?” Aturdido, fiz sinal de positivo com o dedo indicador. Ele sacou o celular para uma foto.

oje tenho tantos seguidores e solicitações de amizade que minha vida social prescinde de interface humana. Quando estou on-line, tenho controle total da linha do tempo da minha vida. Nem que, para isso, seja preciso ler as políticas de privacidade de cabo a rabo. Nas redes sociais não envelheço, não titubeio, não tenho cólica ou remela. E tenho o Photoshop sempre à mão. Meu perfil fica cada vez mais bonito com o passar dos anos.

No começo, mamãe estranhava minha opção pelo virtual e implorou para eu procurar um psicólogo. Encontrei um que atendia via Skype e aceitava pagamentos via PayPal. Marcamos sessões semanais. As primeiras conversas foram produtivas, mas em pouco tempo encontrei um aplicativo grátis que desempenhava a mesma função.

Cheguei a fazer incursões esporádicas numa realidade sem configurações antispam. Aos 15 anos, conheci uma simpática avatar num site de relacionamentos e cometi o erro de marcar um encontro ao vivo. Por que eu não me contentei com o mural de fotos? Para piorar, ela se comunicava em mais de 140 caracteres e não tinha um filtro para bloquear o mau hálito. Tentei reinicializar. Em vão. Resultado: desde que surgiu a função “cutucar”, passei a flertar apenas on-line.

Hoje vivo sempre a curtir. Ver aquele dedo polegar levantado em sinal de positivo funciona como um bálsamo para a autoestima. Anos de análise não quebrariam tantas barreiras do subconsciente, complexos de inferioridade e desejos reprimidos de aceitação social.

O oposto também tem funções terapêuticas. Em dias carentes, qual um Roberto Shinyashiki randômico, atualizo meu status com trovoadas motivacionais. Atuo como um polinizador de utopias. Frases como “Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade” são de arrepiar a alma. Quem não repensa toda uma vida depois de ler uma síntese como essa? Cada vez que um amigo clica em “curtir”, me sinto abraçado.

Treinei como um pequeno Yoda para potencializar meus dotes sociais e criei dogmas que faço questão de seguir. Eles são tão importantes que copiei e colei no meu perfil.

Regra #1: É fundamental fragmentar a atenção. Faço exercícios diários nesse sentido. Quando me pego lendo mais de dois parágrafos de um texto ou vendo filmes com mais de um minuto, desvio o olhar para outra coisa. Sou capaz de postar uma mensagem enquanto dirijo, mesmo que esteja conversando, ouvindo música e mexendo no GPS.

Regra #2: Olhe para as redes sociais como um Lévi-Strauss 2.0. É fundamental compreender as características antropológicas de cada uma. Use o Orkut para compartilhar piadas de salão. No Twitter, tente sempre parecer inteligente e, no Facebook, aja sempre como a pessoa que você gostaria de ser.

Regra #3: Encarne o Cesar Maia e interaja efusivamente com seus seguidores. Comente, curta, compartilhe. Separe vinte minutos pela manhã e escreva recados carinhosos para seus amigos aniversariantes.

Regra #4: Todo mundo tem um lado ruim. Para dar vazão a esse lado, crie um perfil falso.

m social da rede que pretende causar buzz não pode olhar apenas para seu umbigo. É preciso antever as novidades, ter suas fontes e construir uma rede de contatos. Nunca se sabe quando um apresentador de telejornal fará uma nova trapalhada ou quando uma experiência fofinha envolvendo crianças será filmada novamente. A sociedade on-line dá crédito àquele que divulga rapidamente um comercial engraçado, uma notícia sobre os benefícios da cerveja ou a expertise de um bebê com seu tablet.

Modéstia à parte, creio que sou reconhecido – quiçá internacionalmente – pela ampla capacidade de mobilização em prol de temas humanitários. Se a gente não se fizer o bem, quem o fará? Recentemente, cativei todos os meus contatos, durante um mês, a assinar uma petição on-line contra uma enfermeira que espancou um ornitorrinco até a morte numa pet shop em Madagascar. Os jovens de 1960 quiseram salvar o mundo real. Minha geração, menos ingênua, não foge da luta: está disposta a pegar em armas virtuais para salvar os bichinhos com um clique no mouse. É uma utopia, mas os sonhos não envelhecem.

O bom é que posso me indignar sem ficar zangado. Basta compartilhar um vídeo do Arnaldo Jabor, uma imagem de um cachorro maltratado ou um texto incisivo sobre o assunto do momento. Já questionei os patrocinadores do Big Brother por bancarem um programa que estimula o estupro, enviei e-mails para o governo do Congo cobrando atitudes para melhorar aquele IDH chinfrim e publiquei fotos denunciando a clonagem de bonecas infláveis no sudoeste do Suriname. Nem Gandhi fez tanto!

Aliás, gostei desse texto. Pena que o autor é desconhecido. Vou postar no meu perfil dando crédito ao Verissimo para ver se alguém lê.

O Social da Rede, por Renato Terra –  Revista Piauí – via Lira Neto.

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Inevitável. Sempre por esta época do ano, quando a tevê e os jornais nos bombardeiam com propagandas apelativas sobre o Dia dos Pais, me pego a pensar no velho Bob Lira. Mais especificamente, fico a recordar a última vez em que o vi e, não por coincidência, a última vez em que estive em Massapê, a cidade na qual meu pai tinha o umbigo enterrado e onde hoje, também, descansam os seus ossos.

Ele já estava bem doente, o organismo depauperado pelo câncer de pâncreas que o levaria deste mundo. A moléstia, ele próprio reconhecia, era o resultado de uma vida de poucos cuidados. Os hectolitros de aguardente que havia ingerido desde muito moço terminaram por cobrar-lhe o preço. Admiro-me agora que ele também não tenha sofrido com alguma complicação pulmonar, a despeito das toneladas de nicotina que devia acumular no peito.

Quando soube que ele estava bem mal, fui visitá-lo, já desconfiado. Pelo que minhas tias haviam narrado ao telefone, aquela seria uma viagem de despedida. Durante as quatro horas do percurso entre Fortaleza e Massapê, fui juntando os cacos da memória, tentando costurar os fiapos das lembranças, buscando reconstituir a imagem de meu pai, sempre tão ausente, tão distante, tão largado de tudo e de todos – principalmente de si mesmo.

Lembrei das moedas escondidas por ele no fundo da mala, para que os filhos, depois da festa por sua chegada de mais uma longa viagem, pudessem brincar de procurá-las em uma espécie de caça ao tesouro. Lembrei também das muitas vezes em que o vi embriagar-se sozinho no sofá vermelho da sala, entornando goles generosos de cachaça, ao som de tangos, sambas-canções e boleros rasgados. Lembrei ainda dos versos que declamava, das doces mentiras que contava, do seu alucinado medo de alma penada.

Enfim em Massapê, quando de longe avistei o casarão de meus avós paternos, vislumbrei também a figura de alguém em pé na varanda, bem próximo à porta principal, logo acima dos degraus que levavam ao portãozinho de ferro pintado de branco. Imaginei que era meu pai que já me aguardava, ansioso, pois eu havia ligado no dia anterior para dizer que chegaria no primeiro ônibus da tarde. Porém, logo uma dúvida me assomou. Aquela pessoa plantada na fachada da casa parecia bem menor e ainda mais frágil do que a imagem que eu havia guardado de meu pai desde o nosso último encontro em Massapê.

Depois de caminhar algumas dezenas de metros, fui percebendo que, sim, realmente era ele. Estava bem mais magro, constatei, depois de percorrer alguns passos em direção à casa. Ele estava com os ombros mais curvados, reparei, após distância menor. O rosto parecia ainda mais enrugado, verifiquei, ao me aproximar do portão. Meu pai não desceu os seis ou sete degraus que nos separavam para vir ao meu encontro. Compreendi que aquilo exigiria dele um esforço que o velho Bob Lira não podia mais se dar ao luxo de me oferecer.

Lá estava eu diante de meu pai ou, pelo menos, do que a vida fizera dele. Procurei não abraçá-lo com muita força, com medo de que suas clavículas, cujos contornos aparentes se desenhavam por baixo da camiseta encardida, se quebrassem em minhas mãos. A barriga dele parecia inflada, um par de olheiras adornava-lhe a face. Naquela tarde, conversaríamos amenidades, trocaríamos novidades a respeito da família, evitaríamos assuntos que despertassem emoções demasiadamente fortes.

No começo da noite, enquanto ainda palestrávamos abobrinhas embalados em confortáveis cadeiras de balanço, um velho amigo de meu pai passou por lá para visitá-lo. Depois das apresentações de praxe, o recém-chegado olhou para mim com ar condoído e, em seguida, soltando um suspiro, alvejou meu pai com um olhar de censura. “Seu pai está assim porque quis”, disse-me o visitante, enquanto abanava a cabeça de um lado para outro, em sinal de reprovação. “O Bob bebeu muito, fumou demais, raparigou feito um demônio”, comentou, com o sotaque tipicamente sertanejo.

Quando em seguida o homem me informou que era quase vinte anos mais velho de que meu pai – apesar de na verdade aparentar ter apenas a metade da idade dele -, tomei um susto. Postos lado a lado, aqueles dois indivíduos protagonizavam um doloroso contraste. Um, mais idoso, falante, lépido e fagueiro; o outro, bem mais jovem, alquebrado, a voz rouca, mal conseguia sustentar o peso do próprio corpo. Durante os vários minutos em que o homem continuava a tagarelar e a desfiar toda a sua catilinária, meu pai permaneceu calado, a cabeça pendida sobre o peito, a boca fechada, a comissura dos lábios voltada para baixo.

De súbito, alguns instantes depois, vi Bob Lira aprumar-se na cadeira, endireitar o pescoço, estufar o peito, pôr o dedo em riste e encarar o amigo com impressionante firmeza. Percebi que ele procurara encontrar, sabe-se lá como, sabe-se lá onde, alguma força misteriosa dentro de si mesmo, uma última centelha de vida que fosse, para responder às recriminações que lhe eram atiradas assim ao rosto.

“E você, heim, seu filho de papa com freira? Está assim todo pimpãozinho também porque quis”, esbravejou meu pai para o sujeito. “Você nunca provou um cigarro, nunca bebeu um gole de bebida, nunca fez uma mulher gemer de verdade na cama. Sempre viveu acuado na barra da saia de sua mãe, aquela pobre velhota que talvez tenha morrido de desgosto por ter criado um cabra frouxo como você”, desabafou.

O homem arregalou os olhos, deu boa noite e saiu de fininho, sem querer mais conversa. Fiquei então olhando para meu pai, atônito. Eu estava ainda um tanto quanto abismado com aquela inesperada virada de mesa. Porém, não demorou muito e ele logo tornou a debruçar o queixo sobre o peito, respirou fundo, pôs as mãos sobre as pernas e voltou a mergulhar no silêncio. Pelos cantos da boca, enquanto ressonava, parecia sorrir. Aquele rompante e aquele meio sorriso foram as últimas lembranças que guardei de meu pai. Semanas depois, já em casa, recebi a notícia de que ele havia morrido.

Combinei com meu irmão que iríamos ao enterro em Massapê. Mas confesso que fiquei feliz quando o carro pifou bem na hora de pegarmos a estrada. Não lembro o motivo pelo qual o automóvel não quis mais ligar o motor. Só sei que, por causa disso, não cheguei a ver meu pai morto. Nunca mais voltei a Massapê. Jamais botei os olhos no túmulo de meu pai. Preferi guardar aquela derradeira imagem dele para sempre: um homem que se orgulhava de ter vivido todos os dias que lhe foram possíveis viver. É este o Bob Lira que ficou vivo, idealizado, em minhas retinas, em minha saudade e em minha dolorida memória.

Feliz Dia dos Pais, Bob Lira

.Lira Neto

(Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste em 6 de agosto de 2010)

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O nome dela é Fabiana. Em seu lacônico perfil na internet, ela não nos revela o sobrenome. Mas se diz “nascida e criada em São Paulo, filha e neta de paulistas”. Informa-nos também, com idêntico orgulho: “Crescida na capital, com vínculos com o interior”. Fabiana, que se assume uma “iniciante em temas como cultura e autodeterminação há cerca de dois anos”, é moderadora do blog “São Paulo para os paulistas”.

Os anônimos idealizadores do blog, dias atrás, despejaram na rede uma petição às autoridades e à sociedade paulista. Até o instante em que garatujo este texto, 471 indivíduos – supostamente todos membros de quatrocentonas estirpes de Piratininga – adicionaram o nome ao documento. Pena que boa parte dos signatários adote o exemplo de Fabiana e não nos consinta conhecer os sobrenomes, o que nos impede de conferir-lhes até onde vai a integridade dos galhos de sua venerável árvore genealógica.

“São Paulo é grandioso, nossos antepassados trabalharam para isso”, gaba-se o manifesto. “Não se deve permitir que outros se apoderem do que é nosso”, defendem os autores da briosa petição. “Todo local ao nosso redor está infestado de migrantes”, escandalizam-se. “Nas ruas, ônibus, supermercados, parques, todos os postos tomados. Ao adentrar em um comércio, todos os funcionários são migrantes. Isto é um extermínio cultural inadmissível”, protestam, quiçá tapando o nariz, provavelmente arrebitado.

Por falar em extermínio, a repulsa de Fabiana e seus camaradas nessa cruzada moral e cívica não é contra a migração em geral, mas contra uma espécie peculiar de migrante. Em relação aos estrangeiros, por exemplo, nada têm a objetar. “Estes ajudaram a construir São Paulo”, acreditam. Mas “repugnamos o ´R´ gutural, vogais abertas, as expressões ´ôxe´, etc.”, particularizam.

Consideram falácia a afirmação de que São Paulo foi construída pelo braço nordestino. Até os anos 50, imaginam, a presença de migrantes do Nordeste teria sido “irrisória” para o estado. “As fotos e filmagens do período atestam o perfil da população”, afiançam, demonstrando um rigor histórico capaz de fazer o ectoplasma de Plínio Salgado dar pinotes de vergonha. “São Paulo não optou por esta mão-de-obra. Em sua ausência, seria substituída”, alegam. “E com melhor qualidade”, asseguram.

Os idealizadores do manifesto repudiam a pecha de racistas que, presumem, desabará sobre suas afiladas cabeças: “Não existem culturas superiores ou inferiores. Respeitamos todas as culturas”, declaram. “Exigimos que respeitem a nossa, agredida pela migração”, ressalvam. “A cultura migrante caracteriza-se por ser agressiva, violenta, simbolizada no fato de ter como seu herói a figura de um cangaceiro”. Com base em uma lógica escalafobética, deduzem: “Daí a alta taxa de criminalidade cometida por migrantes em São Paulo”.

Os verdadeiros preconceituosos, raciocinam os companheiros da altiva Fabiana, somos nós, os próprios migrantes. “Preconceito é invadir a terra alheia, prejulgando que pode jogar lixo nela, apoderar-se, impor cultura e costumes, ouvir seus ritmos, falar alto em ônibus”, revoltam-se os polidos signatários. “Preconceito é o ato de, sendo intruso, negar o direito ao dono da casa de se manifestar”, sofismam, evocando o sagrado princípio da livre expressão. “Esclarecemos que não se possui absolutamente nenhuma animosidade contra aqueles que estão em sua terra”, explicam. Estará tudo bem, desde que os nordestinos “façam arruaças em suas terras de origem”. E advertem: “São Paulo não é filial do Nordeste”.

Os digníssimos que assinam o manifesto denunciam uma “vitimação” orquestrada por nordestinos. “Migrantes fazem-se de vítima” para disfarçar a “cobiça de tomar o que é do outro”. O argumento remete ao horror antissemita, mas os 471 confrades de Fabiana refutam qualquer hipótese de serem confundidos com nazistas, fascistas, skinheads e afins.

“Não compactuamos com idéias ilegais, clandestinas, desumanas ou intolerantes”, juram, para afirmar que não estão amparados em “conceitos prévios”, mas em “fatos” concretos. Queixam-se, por exemplo, de que “a quase totalidade dos serviços públicos de São Paulo são para usufruto de outras culturas”: postos de saúde, transporte, atendimentos de emergência, assistência social. Como se não bastasse, “migrantes tomam vagas de nossas crianças nas escolas e creches, aumentam a demanda por merenda”. Sentindo-se ultrajados, proclamam: “É hora do povo paulista ser menos altruísta”.

A pobreza histórica do Nordeste, avalia o manifesto, seria fruto do gosto atávico dos nordestinos pela folia. “Festas juninas interrompem o trabalho por um mês. Há os carnavais fora de época, intermináveis. Enquanto isso, o paulista esgota-se no trabalho”.

Como solução final para a “migração predatória”, propõem às autoridades medidas radicais. Uma delas, a suspensão de todo e qualquer benefício público a migrantes, incluindo hospitais, escolas, metrôs e creches. Querem multas para empresas que contratem temporários migrantes mas que não providenciem a sua devida “devolução”. Concursos públicos seriam vedados a migrantes. O ofício de professor, idem. “O baixo desempenho do estado nos indicadores nacionais são devidos aos migrantes”, justificam, aliás, patinando na gramática.

Por fim, solicitam a demolição do Monumento ao Migrante Nordestino e a proibição dos Centros de Tradições Nordestinas no estado. “Repudiamos qualquer tipo de evento à cultura migrante com verbas públicas”, bradam. “Tenta-se vender a ideia de que São Paulo é terra sem dono, casa-da-mãe-joana”, deploram. “Nossa praças não são locais de rodas de forró”, reclamam. “São Paulo para os paulistas!”, exigem os 471 gatos pingados, patética e burlesca minoria em uma terra arrebatadora e generosa. Trágico, não fosse tão cômico.

.Lira Neto

(texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste em 16 de julho de 2010)
mais em: Lira Neto.

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Quando meu pai saiu de casa, para nunca mais voltar, eu tinha 14 anos de idade. Não posso dizer que aquilo tenha produzido uma mudança muito brusca em nossas vidas. O velho Bob Lira sempre fora um nômade. Tinha a profissão de caixeiro-viajante – ou representante comercial, como ele gostava de dizer, com certa pompa, aos vizinhos e amigos. Vivia na estrada, dirigindo sozinho, dormindo em hotéis de cidadezinhas do interior, o porta-malas do carro lotado de mostruários de confecções, panelas, medicamentos, cosméticos, miudezas, quinquilharias. Passava o mês inteiro longe de casa. Ao retornar, já estava de malas prontas menos de uma semana depois, para mais outra de suas longas viagens de trabalho. Naquela manhã específica, quando pegou sobre a mesa de fórmica as chaves do velho Corcel GT marrom de capota preta, não me avisou que dessa vez era para sempre. Simplesmente se foi, levando consigo sabe-se lá quais sentimentos dentro do peito.

Minha mãe, dona Darcy, funcionária pública do antigo IAPC, desdobrou-se para cuidar, alimentar e educar os cinco filhos, rigorosamente sozinha. Fomos vivendo nossas vidas assim, sem maiores notícias do velho Bob. Para nós, ele desaparecera no mundo, evaporara, sem deixar rastros aparentes. Abrira um buraco no chão e sumira lá dentro dele. Quando, tempos depois, soube que ele voltara a morar em Massapê, cidade do interior cearense onde nasceu, cheguei a enviar-lhe duas ou três cartas sentidas. Nenhuma cobrança, nenhuma ira, nenhum ressentimento. Nas cartas, falava apenas de saudades. Meu pai respondeu a cada uma delas com sua letra torneada e firme. Ele sabia escrever quase tão bem quanto a minha mãe. Só havia feito o curso primário, mas era um leitor voraz. Um autodidata que trazia trechos de Camões e Castro Alves na ponta da língua. Na última carta, em meio a floreiros verbais, dizia-se arrependido. Queria voltar para casa – coisa que nossa mãe, eu tinha certeza, jamais admitiria. Adverti-lhe a respeito disso. Nossa mãe preferiria enfrentar o demônio pintado de dourado a vê-lo novamente. Ele então tornou a sumir.

Quanto fiz 25 anos, achei que era a hora de um reencontro entre pai e filho. Sem comunicar-lhe nada, coloquei algumas mudas de roupa na mochila e carreguei pela mão o meu então único filho, Ícaro, de apenas quatro anos de idade. Não saberia dizer exatamente o porquê, mas queria que o menino conhecesse o avô que um dia batera asas e nunca mais voltara. Ele era um canalha. Mas um canalha irresistível, um excelente contador de histórias, um declamador insuperável e, além do mais, a despeito de tudo, não havia a menor sombra de animosidade em meu coração. Nossa mãe, apesar da mágoa íntima, não nos inoculara o sentimento do rancor. Portanto, sem qualquer espécie de aviso prévio, eu e Ícaro tomamos um ônibus na rodoviária de Fortaleza e, quatro horas depois, desembarcamos na pequena e calorenta Massapê, localizada ao pé da serra da Meruoca.

Detalhe: eu não sabia exatamente onde o velho Bob morava. Havia me desfeito das antigas agendas, bem como das cartas que ele me enviara. Desse modo, não possuía seu endereço. Os laços haviam se esgarçado ainda mais radicalmente. Contudo, como eu previra antes de partir, não foi difícil localizar-lhe o paradeiro. A cidade era minúscula e, muito provavelmente, ali todo mundo se conhecia, eu bem imaginara. Dito e feito. A primeira pessoa que parei na rua em Massapê logo me indicou, sem pestanejar, o caminho para a farmácia Santa Luzia, do “Doutor Bob Lira”.

Coração aos pulos, sempre puxando Ícaro pela mão, caminhei até lá. Poucas ruas depois, parei diante da porta da pequena farmácia e olhei para dentro. O que vi foi um homem grisalho por trás do balcão, plantado de costas para a entrada, remexendo em algumas gavetas do armário de madeira atulhado de remédios. Entrei, aproximei-me do balcão e senti emanar, daquele homem, um cheiro familiar de loção de barba e brilhantina que, de súbito, remeteu-me à infância. Era ele, sem dúvida. O sujeito, em cuja cabeleira prateada caprichosamente penteada para trás reconheci a figura um pouco mais envelhecida e mais curvada de meu pai, pareceu não ter notado minha chegada. Continuou de costas, remexendo nas gavetas, como se procurasse alguma coisa ali dentro delas.

“O senhor tem Sonrisal?”, indaguei, na falta de algo mais ensaiado para dizer em semelhante circunstância. Ele não se mexeu. “Tenho. Quantos você quer?”, devolveu-me, ainda sem se virar. “Uns quatro. A ressaca está braba”, prossegui. Ele tornou a remexer as gavetas. Então se voltou em minha direção com algumas embalagens douradas na mão e, parecendo um tanto quanto atônito, permaneceu de novo parado, lívido, uma estátua viva, fitando-me em absoluto silêncio, como se estivesse vendo uma assombração.

Não sei precisar quantos segundos demorou aquilo. Lembro apenas dos olhos verdes de meu pai saltados da órbita, a boca entreaberta em meio a um esgar que demonstrava, ao mesmo tempo, surpresa e susto. Era o mesmo rosto amarrotado que eu guardara na memória, ainda um pouco mais maltratado pelo tempo e pela vida de dissipação que por certo seu dono levara. Enquanto ele permanecia ali, imóvel, branco feito cera, eu procurava adivinhar e reconhecer naquela face enrugada os traços de meu próprio rosto. Éramos realmente bem parecidos, constatei. Pouco a pouco, ele começou a se mover. Em gestos que naquela hora me pareceram em câmera lenta, aproximou-se pé ante pé da borda do balcão. Só então ele conseguiu divisar, ali do meu lado, abaixo do seu campo de visão anterior, o pequeno Ícaro, que lhe sorriu sem entender ao certo o que estava acontecendo.

Com um suspiro profundo, meu pai apoiou as duas mãos sobre o tampo do balcão e, inesperadamente, movido por uma agilidade insuspeitada para um homem de sua idade, saltou por cima do móvel, caindo de pé, bem ali ao meu lado. Não falou uma única palavra naquele instante. Abraçou-me, sinceramente comovido. Retribuí, também em silêncio. As falas, de fato, não fariam qualquer sentido em tal momento, especialmente quando ele desatou a chorar ao pôr Ícaro no colo. “Eu sou um estúpido”, gaguejou, enfim. A frase saiu entrecortada por soluços.

Era por volta do meio-dia e, olhando para o mostrador grande e verde do relógio de pulseira prateada, meu pai nos convidou para almoçar. Com a ajuda de um comprido gancho de metal, puxou as duas portas de ferro cinza da farmácia para baixo e, com uma tirada de espírito que era bem própria dele, afirmou que iria decretar feriado nacional naquele dia, por conta própria. “Ninguém invente de ficar doente hoje na cidade. A farmácia só abre amanhã”, sentenciou. Enquanto almoçávamos numa birosca logo ali ao lado, ele mandou chamar um amigo, o Lau, que dirigia um carro de aluguel em Massapê, creio que o único “táxi” da cidade àquele tempo. “O automóvel vai ficar a nossa disposição o resto do dia. Quero mostrar Massapê para você”, comentou.

Choveu forte naquele dia. O vidro dianteiro do lado do passageiro estava quebrado e, com isso, o aguaceiro entrava por ali sem qualquer controle. No banco de trás, ao meu lado, Ícaro olhava o avô ensopado e dava cambalhotas de tanto rir daquela situação inusitada. Meu pai, olhando para trás, a cabeleira brilhantinada toda desmanchada pela chuva, também caía em um riso alucinado. Nunca esqueci aquela cena. Meu pai e meu filho, juntos, como dois loucos, possuídos pelo riso.

.Lira Neto

depois de ler esse texto e ter meu rosto tomado por lágrimas, me senti na obrigação de publicá-lo aqui. – como eu queria ter conhecido esse canalha, esse canalha irresistível, a quem eu teria o prazer de chamar de ‘vovô’.

.julianegarcia

(o texto acima, de Lira Neto, foi publicado originalmente
no jornal Diário do Nordeste em 21 de maio)

leia completo em: blogdolira

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Penso tê-lo visto uma única vez, talvez no final de 1971, quando o peso dos quase 80 anos de idade já lhe prenunciavam o triste desfecho. Eu tinha apenas sete anos – e esta é uma das minhas mais remotas lembranças de infância. Sentado na cama, completamente cego, vestido com o pijama azul, o velho João de Lira Cavalcante pôs-me a mão na cabeça, passou os dedos nos meus então vastos cabelos infantis e depois sorriu, mirando o nada. Não lembro se falou algo, se me perguntou alguma coisa, se fez algum comentário específico. Só guardei daquele momento alguns rápidos lampejos, uma memória enevoada, uma reminiscência cheia de brumas, bem típica daquela amnésia natural que caracteriza as recordações adultas a respeito dos primeiros anos de vida.

O pijama de meu avô era realmente azul ou o tingi depois mentalmente, reconstruindo a imagem de acordo com os tons suaves de minha cor favorita? Seus dedos se demoraram de fato nos meus cabelos ou apenas desejei que isso houvesse acontecido assim, forjando inconscientemente uma lembrança física posterior que confortasse o sentimento de ausência? Ao tentar reproduzir o passado vivido, terei recuperado aquele momento com as tintas involuntárias da idealização? Não tenho respostas precisas para tal. Essas armadilhas são próprias das reminiscências pessoais – sempre seletivas e construídas -, o que faz da narrativa do passado necessariamente um jogo de esconde-esconde entre a memória, o esquecimento e os mistérios da subjetividade de quem a viveu.

.Lira Neto

(trecho do texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste em 30 de abril)
.mais em: Blog do Lira

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Na minha infância, lá em Caucaia, em um dia como hoje, Sexta-Feira Santa, ninguém lia jornal. Não se podia folhear revistinhas do Tio Patinhas, do Batman, da Luluzinha. Também não se podia ligar o rádio para ouvir música ou a tevê para assistir ao Mister Magoo. A molecada não saía de casa para jogar bola na rua, ninguém podia levantar a voz, falar alto, rir à solta. As mocinhas mais velhas, neste dia, não passavam batom, não ficavam à janela, não vestiam roupa colorida. Namorar, nem pensar. Ir à praia, impossível. Tudo era pecado. E dos bem grandes, imperdoáveis, daqueles de ir diretinho para o inferno.

Jesus Cristo estava morrendo, pregado no alto de uma cruz de madeira, para salvar as nossas almas desgraçadas, dizia-nos a professora de catecismo, que mais parecia a figura de uma bruxa, com seu cabelo de palha, boca torta, sobrancelhas eriçadas, dedos finos e enrugados. Era preciso manter, durante todo o dia, a mais absoluta contrição, ela recomendava, com semblante e voz ameaçadores. Nós, que sequer imaginávamos o significado da palavra contrição, pelávamo-nos de medo, caíamos no mais soturno dos remorsos, na mais torturante das culpas.

A Sexta-Feira Santa era assim o paroxismo da crueldade contra nossas pequenas inocências. Neste dia, concentravam-se de uma só vez todas as proibições, todos os interditos, todos os impedimentos que os adultos nos impingiam, em maior ou menor escala, sempre a título de castigo, nas demais datas do calendário. Durante os feriados da Paixão, não podíamos fazer nada. Nada mesmo. Tínhamos que ficar amuados, no canto, pensando nos nossos próprios pecados (!) e nas sete chagas do Cristo. Não era uma questão de respeito, crença, deferência, comiseração. Era pura obrigação.

Minha mãe, dona Darcy, nunca foi propriamente uma católica fervorosa, dessas de ir à missa todo domingo e exigir orações à mesa do almoço. Meu pai, menos ainda, embora tivesse pavor de alma penada, nunca foi homem de frequentar igreja. Gostava mesmo, bem ao contrário, era de falar mal dos padres e dos carolas em geral. Quando queria referir-se a alguém de modo negativo, o velho Bob Lira tascava a sua ofensa predileta e fulminante: “É um filho de papa com freira”.

Mesmo assim, na Sexta-Feira Santa, a casa inteira fazia silêncio. Era como se o número 366 da Rua XV de Novembro estivesse de luto, a exemplo de todos os demais vizinhos. Mantinha-se um impositivo sossego de vozes, uma tranquilidade de passos, uma economia de gestos. Aquele lar, de comum tão barulhento por causa das brincadeiras e das confusões provocadas pela montoeira de irmãos, ficava irreconhecível em meio a tanta calmaria. Minha mãe e meu pai jamais precisaram explicar, mas cresci compreendendo que, para eles, cada um a seu modo, o sentido da morte de Jesus Cristo – e o próprio Cristo – estava muito acima das convenções das igrejas e das regras ditadas pelos homens de batina.

Lá pelos meus onze anos de idade, um meninote amigo meu, vizinho de quintal, começou a bater bola bem debaixo de uma frondosa mangueira que havia na casa dele, justamente numa Sexta-Feira Santa. Uma heresia, alarmei-me, atacado por uma série incontrolável de tremores. Havia um terrível agravante: já era por volta das três da tarde, a hora fatídica, como nos dissera um dia a professora do catecismo (exatamente a hora em que Cristo soltara o último suspiro, ela garantira). Mas o som daquela bola de borracha quicando no chão de terra batida despertou-me uma vontade louca de ir correndo para lá, para também dar uns bons chutes e ensaiar uns dribles meio desajeitados, como era próprio de um perna-de-pau assumido como eu.

Sempre fui uma criança caladona, ensimesmada, de poucas palavras. O que nunca impediu dona Darcy, sabe-se lá por meio de quais mistérios maternos, de decifrar cada um de meus pensamentos, mesmo os mais íntimos, secretos, inconfessáveis. Como sempre fazia, ela pareceu entender sem dificuldades o dilema que se apoderara de mim, o remorso que me corroía por dentro, a tentação de ir jogar bola debaixo daquela mangueira, ao mesmo tempo em que o terror me paralisava os músculos e me impedia de ousar dar um único passo que fosse em tal sentido.

Nem era pelo futebol em si, minha mãe devia saber, pois nunca fui mesmo habilidoso com uma bola nos pés. Era antes a irresistível vontade de me libertar de um peso que se acumulara sobre meus pequeninos e magrelos ombros, um temor cruel semeado nas velhas aulas de catecismo, um assombro alimentado pela visão aterradora das imagens de santos cobertos com capas roxas no altar da Matriz. Em resposta à minha visível aflição, dona Darcy apenas sorriu. E, ali, pronunciou a frase que me libertaria para sempre: “Faça sempre o que seu coração diz que é certo”. Desde então, aquela frase se tornou minha única religião.

Um minuto depois, lá eu estava saltitando sobre folhas secas da mangueira e chutando a bola para que meu amigo, que sonhava em ser goleiro, testasse suas habilidades na pequena trave improvisada com duas bandas de tijolo vermelho. A cada novo chute, eu exorcizava os fantasmas internos, afastava-me mais das lições de catecismo, aproximava-me ainda mais de minha mãe, que havia ficado em casa, com o mesmo sorriso de compreensão no rosto.

Horas depois, quando voltei da jornada peladeira no quintal do vizinho, suado, extenuado, coberto de pó da cabeça aos pés, eu estava infinitamente mais leve. Soube então que minha mãe havia feito um bolo, que comemos todos em volta da mesa de fórmica, entre sorrisos e conversas amenas.

Foi o bolo mais gostoso que já comi em toda a minha vida.

.Lira Neto

(texto publicado hoje, 02/04/10, no Jornal Diário do Nordeste)versão online.


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